| — | Caio Fernando Abreu |
0 Ele pode...
“Ele pode estar olhando tuas fotos neste exato
momento. Por que não? Passou-se muito tempo, detalhes se perderam. E
daí? Pode ser que ele faça as mesmas coisas que você faz escondida, sem
deixar rastro nem pistas. Talvez, ele passa a mão na barba mal feita e
sinta saudade do quanto você gostava disso. Ou percorra trajetos que
eram teus, na tentativa de não deixar que você se disperse das
lembranças. As boas. Por escolha ou fatalidade, pouco importa, ele pode
pensar em você. Todos os dias. E, ainda assim, preferir o silêncio. Ele
pode reler teus bilhetes, procurar o teu cheiro em outros cheiros. Ele
pode ouvir as tuas músicas, procurar a tua voz em outras vozes. Quem nos
faz falta, acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela
aberta. Não há escape. Talvez, ele perceba que você faz falta e
diferença, de alguma forma, numa noite fria. Você não sabe. Ele pode ser
o cara com quem passará aquele tão sonhado verão em Paris. Talvez, ele
volte. Ou não.”
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